Reflexão

Uma xícara de café com leite no inverno

24 de agosto de 2015
Uma xícara de café com leite no inverno

Estou prestes a completar 6 meses de casa nova. Larguei uma vida “estável” no interior: amigos, família, praticidade e segurança. O motivo eu ainda não sei. Me pego pensando por diversas vezes que seja uma forma de escapar dos meus medos e saciar minhas ambições.

O desejo de me desafiar me domina. Pouco importa para onde me leva e muito menos o que faz comigo. O que de fato importa é vencer. Mesmo que mancando, sofrendo e cheio de lesões profundas pelo meu corpo. Porém, cada dia que passa, lembro de onde vem as minhas forças e que indiferentemente de onde esteja, meus demônios seguem os meus rastros.

Felicidade? Talvez seja essa a busca. Esses momentos efêmeros que acreditamos durar para sempre. Se envolvem em nossa alma e causam a maior dependência já vista nessa terra. Preciso recordar quem eu sou, mas como recordar distante do que me construiu? Minha força vem do coração puro da minha avó, espontaneidade da minha mãe, colo quente dos meus amigos (…) Descobri, que indiferente de onde eu esteja, sempre irei precisar de algo para me lembrar da minha essência e origem da minha linguagem. Essa ansiedade que pulsa e dispara o peito, encharca minhas mãos e me tira o ar, me leva a lugares distantes, me engrandece, mas me deixa cada dia mais longe da minha alma.

Preciso andar descalço pelo solo fértil, tomar uma cerveja na praçinha, ler o jornal regional na banca de revistas, dormir e acordar com o barulho dos animais, sentir o vento nos ombros enquanto ando de bicicleta, escutar buzinas roucas e namorar tranquilamente o meu telefone pelas ruas. Preciso que as beatas cuidem da minha vida e meu nome esteja na boca do povo. Os olhares do pecado e dedos que apontam fazem parte da máquina. Preciso de gente que se importe, viva e transpire humanidade. Estar no interior, é como tomar um café com leite bem quente em uma manhã de inverno. Aquece meu peito, me sinto querido e vivo novamente. A segurança é reconfortante, mas traz consigo a dor da dependência.

Na selva de pedra não sei quem são meus vizinhos. Muitas vezes, na escadaria do meu prédio, encontro figuras que sempre estiveram lá, inclusive, algumas pela vida inteira. Fico pensando que foram coadjuvantes da vida de tantas pessoas. Sem alma, enredo ou propósito, apenas permaneceram lá para complementar a paisagem. Será que eles tem empregos, amores e família? Todos os dias nos encontramos. Nos esbarramos na rua. Porém, a gente não se fala, só se encara. Suga o máximo da energia do outro e parte para mais um dia de labuta. Os horários eu crio, assim como todas as condições para que minha vida seja sustentável. A logística me sufoca e penso em desistir.

Lembro-me dos motivos que me fazem querer voar. A vida é a primeira delas. Não vejo respostas e muito menos estabilidade em sua persona. Independentemente de onde esteja, sempre sentirei saudades do que não vivi, do que não tenho e até do que ainda virá. A descontinuidade da rotina e os imprevistos da vida continuarão a me cansar. As pessoas vão morrer, as ruas serão asfaltadas e tudo se transformará em memória. O que fica? A minha história. Ela é deus e eterna. Logo lembro que carrego um par de asas nas costas e por meio dela escrevo o meu trajeto. Não quero que ele seja limitado e muito menos pequeno. Quero uma história grandiosa com feitos incríveis. Quero mudar o mundo, transformar pessoas e deixar algo maior que a minha existência. Portanto, o meu lar deve ser aonde eu estiver. Meu coração deve ser cigano e buscar sempre novidades e reconhecimento. Cultivando propósitos, não há o que temer.


Imagem: Autor Desconhecido.

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